sábado, 11 de abril de 2015

Frente Ampla do Atraso - by Maria Lúcia Victor Barbosa, socióloga.

Frente Ampla do Atraso

Observando o que acontece com o PT, fica-se a pensar na possibilidade desse partido não ter construído sozinho suas estratégias para alcançar o poder e lá permanecer. Afinal, parece não haver mentes brilhantes na grei petista.
Lula_Diadema_discursoTampouco Lula da Silva é um gênio do jogo político ou um estadista como exageram alguns. Sem dúvida, foi escolhido pela cúpula petista e algo acima por sua retórica verborrágica que faz dele um enganador bem-sucedido. Além disso, Lula se ajustou hipoteticamente à ideologia marxista como uma espécie de proletário. Ajudou sua origem simples e o fato de ter passado rapidamente pelas lides metalúrgicas. Construiu-se, então, a imagem do homem comum tão bem aceita pela massa por transmitir aquela agradável sensação de identidade: ele é um de nós que chegou lá.
Habilmente, a propaganda consumou o culto da personalidade que ampliou o poder de enganação do “pobre operário”, contra o qual toda crítica foi tomada como preconceito e heresia. Lula da Silva consagrou o detestável politicamente correto que inibiu os que poderiam arranhar seu santo nome.
Com medo de sua popularidade, qualquer oposição, partidária ou institucional, calou-se diante de seus desmandos, de suas gafes, de seu linguajar chulo e insultante à língua portuguesa. E essa aceitação incondicional, mais a propaganda de fazer inveja a Goebells deram aos “mandarins” petistas e a Lula da Silva a força que parecia os tornar invioláveis.
No entanto, se Lula foi hábil como orador de porta de fábrica, perito como politiqueiro, nunca administrou o País. Seu negócio foi jogar futebol, comer churrasco e fazer viagens dignas de um emir. Em suma, Lula é um falsário e uma fraude construída não só pelo PT, mas por uma organização internacional, o Foro de São Paulo, fundado por Lula, Fidel Castro e outros do figurino esquerdista. O objetivo do Foro é promover a integração da América Latina e formar a Pátria Grande Comunista através de partidos, entidades de classe, ONGs, movimentos sociais.
Na quarta tentativa, o PT chegou ao poder mais alto da República. Não foi preciso dar um tiro sequer. Lula vestiu Prada, mudou o discurso, deslumbrou a hoje achincalhada classe média composta por intelectuais, estudantes, professores, artistas, religiosos, profissionais liberais, jornalistas, funcionários públicos, que fizeram de sua ideologia uma religião, do PT uma seita e sentiram-se guerreiros imortais da luta de classes. Lula prometeu tirar os pobres da pobreza. Aos ricos garantiu mais lucros.
Ao tomar posse, a nova classe dirigente deu continuidade à política macroeconômica do governo anterior, antes criticado de modo estridente, inclusive, aos berros de ‘fora FHC’. Não foi dado calote no FMI nem se rompeu com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, utilizou-se a política econômica antes xingada de entreguista e neoliberal.
Por outro lado, avançou a centralização do PT que dominou o Legislativo, o Judiciário e significativa parcela dos meios de comunicação. Na mesma linha intervencionista e autoritária, houve várias tentativas de censurar a imprensa, como as Comissões de Redação, a criação da ANCINAV (Agência Nacional de Cinema e Áudio Visual) e a instituição do CFJ (Conselho Federal de Jornalismo). Agora, o governo petista fala em regulação da mídia e Rousseff apontou a necessidade de punir os “crimes” cometidos na Internet.
Mas se o Foro de São Paulo é comunista, como poderia dar certo se esse sistema fracassou em todo o mundo? Quer melhor exemplo de fracasso econômico e social do que o da Venezuela, Bolívia, Argentina? Quanto a Lula da Silva, se surfou por 12 anos na demagogia, encontrou o fim de todo malandro: foi engolido por sua esperteza. Isso se deu quando ele elegeu o “poste” Rousseff. Nos quatro anos em que continuou como presidente de fato, ele e sua criatura que não consegue juntar uma frase com outra, detonaram a economia brasileira, enquanto a corrupção desenfreada atingia seu auge com o escândalo do petrolão.
O PT tenta resistir, fala em hegemonia do partido, propõe tirar verbas da imprensa não domesticada, proclama-se inocente. Entretanto, não há governo que resista quando a economia vai mal. Em pânico, os dirigentes petistas percebem que até Lula da Silva não é mais o mesmo. Rousseff, a incompetente, totalmente desacreditada, é descartável e já foi substituída por seu vice Michel Temer (PMDB), mas sem Lula o PT acaba, pois quem poderá substituí-lo em 2018? Mercadante? Haddad? Marco Aurélio Garcia? Rui Falcão? Impossível.
Então, quem sabe se, por inspiração do Foro de São Paulo, Lula da Silva já sonha com a criação de uma Frente Ampla, que esconderia o PT desmoralizado e englobaria partidos de esquerda, ONGs, ditos movimentos sociais, enfim, tudo que compõe a tranqueira esquerdista do Brasil? Os candidatos não sairiam pelo PT, mas da Frente Ampla do Atraso. Uma ideia engenhosa. Resta saber se vai dar certo.
Fonte: http://www.institutoliberal.org.br/blog/frente-ampla-do-atraso/

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domingo, 29 de março de 2015

Pedagogia do oprimido: uma resenha devastadora do mais famoso livro de Paulo Freire

Pedagogia do oprimido: uma resenha devastadora do mais famoso livro de Paulo Freire

Clique no link abaixo para acessar maiores informações:
http://professor-luiscavalcante.blogspot.com.br/2015/03/pedagogia-do-oprimido-uma-resenha.html

sábado, 28 de março de 2015

Podcast com Paulo Cruz - um Negro inteligente! - 162º Podcast Mises Brasil - Paulo Cruz

Podcast com Paulo Cruz - um Negro inteligente! - 162º Podcast Mises Brasil - Paulo Cruz 
http://negrosinteligentes.blogspot.com.br/2015/03/paulo-cruz-um-negro-inteligente.html

A farsa das “classes sociais”

A farsa das “classes sociais”


Luta+de+classesHá uma diferença gritante entre o discurso da militância pró-PT e dos partidos ditos “sociais” e ologos dos liberais, dos conservadores e daqueles com uma visão individualista do destino do homem através de suas escolhas.
Os primeiros, quando no poder e se tornando situação, gritam: “Chora, coxinha!”, “aceitem as urnas”, “agora vou rir da classe média tendo horror ao filho do pedreiro viajando de avião” (como se a reclamação de alguma pessoa no país ao PT fosse que ele está deixando os pobres muito ricos e ninguém gosta disso), “agora os reaças vão ter de fugir para Miami”, “Dilma sambou”, “Dilma lacrou”, dentre outros rios de comentários impublicáveis.
Já os liberais, conservadores e defensores da liberdade individual, desatrelando o destino humano de um plano de poder estatal, quando estão no poder, não gritam “chora, pobraiada!”, “vou rir da cara dos meus empregados e botá-los na rua”, “agora os petistas terão de fugir para Cuba” e afins, fora alguns casos isolados de psicopatia.
Isto se dá porque, ao contrário do que nossa educação, nossa imprensa e nossa cultura coletivista fazem crer, os liberais não são inimigos dos pobres – pelo contrário: muitos deles são pobres – e, sobretudo, liberais crêem no poder da iniciativa individual. Se há alguém que sofre com um governo liberal, este alguém é quem está ganhando muito sem produzir hoje – e quem faz isto tomando dos outros é quem vive de política. São os políticos e os parasitas da burocracia, portanto, os únicos de quem os liberais riem quando convencem a sociedade a seguir seu caminho.
Em outras palavras, nenhum trabalhador de fato tem algo a perder com uma aproximação ao liberalismo, ao contrário de toda a propaganda socialista travestida de “isenção” que é vista no país. Os liberais, afinal, querem os pobres se tornando ricos – e não os xingarão quando eles viverem com as próprias pernas, sem mais vender sua necessidade em troca de obediência eleitoral e poder político.
Já o militante da “política social” e seus partidos vermelhos vive de tomar o que outras pessoas produziram com o trabalho delas através de impostos, supostamente para corrigir a desigualdade, e portanto tem um horror visceral a qualquer idéia defendendo que as pessoas trabalhem e fiquem com o fruto de seu trabalho para si, e não nas mãos controladoras dos burocratas e dirigentes da sociedade.
Esta propaganda travestida de análise científica, portanto, falha graças a um de seus pressupostos mais basilares: tem uma fé cega na existência de “classes sociais” que, como já visto na teoria mais famosa da esquerda política, estariam em “luta” – e tal luta não apenas seria freqüente, como seria o próprio motor da história.
Esta teoria que tanto anima a esquerda é radicalíssima em sua essência. Entretanto, hoje fazem crer que ela está ultrapassada e não é mais usada, quando todo o jornalismo (não apenas o oficial), a academia e a cultura a seguem pari passu.
O problema se inicia no auto-reconhecimento. Como fazia sempre o diplomata José Osvaldo de Meira Penna a seus alunos em Brasília, urge primeiro descobrir a que classe a pessoa que afirma tal discurso pertence. Alguém que jura que existam classes sociais, que a análise da história, da sociedade e mesmo da consciência seja dependente de uma “classe” intransponível, deve, no mínimo, saber a que classe ele próprio pertence.
Os alunos de Meira Penna, quando interpelados com esta pergunta facílima, sempre escorregavam – ainda mais tentando macaquear a posteriori o ultrapassadíssimo linguajar do início da esquerda no séc. XIX. Consideravam-se “burgueses”, “aristocratas” ou até mesmo “proletários”, sem perceber que, na taxonomia forçada do criador do pensamento “classista”, eram da burocracia.
Para o pensador pai da esquerda radical, pertencer a uma classe social determina até mesmo nossas sinapses, valendo mais do que qualquer cultura, nacionalidade, criação, valor, vontade, história individual ou educação.
Tudo se resume a uma “consciência de classe” (Klassenbewusstsein) que analisa a inteireza do tecido da realidade pelo prisma de um “interesse de classe” – a classe burguesa tentando “explorar” a classe proletária, que só teria sua própria força de trabalho (e sua prole) para vender ao outro que ficaria com o produto do trabalho sem ter trabalhado.
Restaria então a tal proletário (ou camponês, embora não houvesse a crença no poder de mobilização do trabalhador do campo) retomar sua “consciência de classe” tomada dele pelo mecanismo da “alienação do trabalho”.
Toda a alienação viria da superestrutura e da infraestrutura da sociedade, que confundiriam o proletariado, fazendo-o acreditar que seus interesses são compatíveis com o do burguês capitalista. Para a esquerda, não se pensa sozinho: é a estrutura de uma classe que pensa por nós. É o materialismo histórico-dialético em sua essência.
Não existiria, portanto, o homem, esta entidade una, indivisível, com destino e escolhas próprias, e sim apenas o trabalhador, espoliado de sua natureza original pela aberração da cultura burguesa. Toda a família, a religião, a moral, os valores, os símbolos, a cultura e o pensamento burguês, já que a História é a luta de classes, seriam apenas fingimentos e disfarces para que todo burguês proteja seus interesses egoístas e exploradores e avilte e humilhe o trabalhador com sua iniquidade.
Todos os burgueses seriam estes monstros a serem eliminados pelo socialismo, exceto o burguês que criou a teoria e aqueles que a seguiram, claro.
Este é o chamado “pensamento classista”, tão ensinado por “entidades de classe”, ou seja, sindicatos, ONGs e ferramentas de tomada de poder político que dizem representar não alguém que lhes delegue poder via representação, mas simplesmente toda uma “classe” escolhida a dedo – e falando em nome dela, supostamente.
É o que liberais chamam de “coletivismo”, os seres humanos tratados como um rebanho de figuras anônimas, que apenas seguem a manada de sua “classe” – sem que se perceba que quem declara isso, tentando enxergar “valores de classe média”, “vontade popular” ou outros conceitos radicalíssimos tratados com normalidade, são invariavelmente pessoas que pertencem a uma classe mais abastada, mas que tem empatia com uma classe distinta – todavia, continua pregando que todos os que pertencem a uma “classe” só têm interesse em proteger a sua própria classe, e que apenas ele, por milagre ontológico na nervura do real, acabou escapando à repetição do círculo.
Seriam os velhos radicais, que, segundo a visão corrente da história, copiada por jornalistas, intelectuais e outros bem-pensantes “críticos”, tiveram um papel menor na política nacional e internacional em tempos recentes – justamente quando vários de seus asseclas tomaram o poder nas últimas duas décadas.
Contudo, o pensamento classista hoje deixou de ser coisa de radicais antiquados, sempre chamando genocídios de “outro mundo possível” – ou mesmo de “luta contra a ditadura” e até “democracia”, quando convém.
Hoje, julgar motivações, vontades, interesses, movimentos e até pensamentos de alguém por sua “classe” virou rotina no jornalismo, na academia, no governo. Sobretudo nos últimos anos.
Fala-se em “classe trabalhadora” (visto que “proletário”, além de ter saído de moda, se provou uma palavra datada tentando definir como arauto do fim do capitalismo justamente a classe que o capitalismo tratou de enriquecer e fazer deixar de existir) contraposta à “classe média” – como se esta não trabalhasse – em estudos de sociologia, em discursos presidenciais, em análises jurídicas e econômicas, em qualquer discussão onde se espera uma certa normalidade sem tiroteios amalucados de conceitos maluco-beleza – e não se atina nunca para o fato de que tais vocábulos são, por si, mais extremistas do que o próprio Lenin.
Pior: pela taxonomia biológica, que organiza os seres vivos por características em comum, temos Reinos (Monera, Protista, Fungi, Plantae, Animalia), filos, classes, ordens, famílias, gêneros, espécies (nesta ordem). A comparação iniciada pela esquerda de pensar que existam “classes sociais” faz crer que seres humanos sejam mais capazes de trocar de espécie, de gênero ou de família do que de “classe”. Classe social, então, seria uma condição mais estanque, delimitadora e fatalista do que suas palavras equivalentes fora da taxonomia biológica.
A verdade dura é que ao contrário das sociedades de estamentos, de castas, de escravos ou outras formas de coletivismo inato, o capitalismo foi justamente o sistema econômico que destruiu o conceito de “classe”, tornando-o apenas uma faixa salarial temporária. Esta faixa é tão variável na vida conforme as escolhas do indivíduo que, num país de economia livre como a América, a maioria dos 20% que nascem em uma família da faixa salarial mais baixa pode fazer parte dos 20% mais ricos em uma década, conforme nos informa Thomas Sowell.
Quando falam em “classes” dentro do capitalismo, estão usando o conceito diametralmente oposto à realidade: é o único sistema econômico do mundo em que não há classes estanques, e sim variações salariais.
Tampouco é a classe “burguesa” (ou seja, comercial) a classe média, com a “classe alta” sendo dominada por nobres. Qualquer telespectador de Downtown Abbey sabe que há muito o capitalismo conseguiu tomar o lugar da nobreza, hoje muito mais simbólica e cultural, em países em que ela ainda existe.
Os homens mais ricos do mundo, ao contrário do que é ensinado nas nossas escolas, não são os bem nascidos: são os criadores de ideias, muitos que passaram anos numa garagem, que ganharam muito com seu trabalho inovador. A pobreza (e mesmo a riqueza) no capitalismo não são destino. Em todos os outros sistemas, e sobretudo no socialismo, são a condição fatal e única de toda a vida de um ser humano.
O conceito de classe foi sempre “retrabalhado”, para não soar ridículo, pela esquerda do século XX. Primeiro, invertendo a “superestrutura” com a “infraestrutura” do radical original, criando coisas como a Escola de Frankfurt. No meio do caminho tivemos pensadores como E. P. Thompson, que concluiu ser impossível diferenciar um burguês de um proletário, enquanto repaginadores mais modernos, como Ernesto Laclau, já sabem que apontar um grupo de inimigos escolhido a dedo como uma “classe” e nomeá-lo assim é que faz aquela classe “existir”. Exatamente o que acontece hoje no Brasil.
Quando o conceito de “classes sociais” é exposto em sua história, seus interesses próprios e suas premissas ocultas, soa sempre ultra-radical e ultrapassado – ainda mais atrelado a seus sub-conceitos, como “consciência de classe”, “interesse de classe” etc.
Todavia, ainda é a norma (e tratado, justamente, como normal, como se fosse um fato, tratando como extremista quem o nega) para se fazer análises de temas sociais.
E conceitos coletivistas, deterministas, fatalistas e criados por teóricos que promoveram o maior genocídio da história mundial ainda subsistem mesmo em análises as mais prosaicas.
Ou ninguém conhece hoje a forma como a população urbana julga pessoas com termos “denigritórios” como “coxinha”, analisa movimentos afirmando algo sobre a cor da pele, a faixa salarial ou o local de trabalho das pessoas (até termos como “traição de classe” são encontrados no jornalismo), ou ainda como universitários e intelectuais não enxergam seres humanos com sua dialética própria, mas sim apenas “classes” que, supostamente, deveriam se odiar e se matar para fazer a história andar – e, sempre, sem perceber que fazem parte da mesma classe que estão jurando de morte?
Enquanto o conceito de classe não cair, ainda será tratado como uma normalidade e um fato, simplesmente por pessoas demais repetirem as mesmas palavras. É a crença do vulgo, o novo ópio das massas – e um “intelectual” hoje costuma ser apenas alguém que sabe mover alguém com tais termos, usando-os como chicotes.
No dizer iconoclasta de Nietzsche, “nunca nos livraremos de nossos deuses enquanto não nos livrarmos de nossa gramática”.

Sobre o autor

Flavio Morgenstern
Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para jornais como Gazeta do Povo, além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Em breve lançará seu primeiro livro pela editora Record.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Por uma Sociologia não-marxista by Catarina Rochamonte

Por uma Sociologia não-marxista

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Há uma relação estabelecida entre os homens. Essa relação pode se dar de uma maneira fluida, quando está de acordo com as nossas inclinações e princípios ou de uma maneira tensa. O eu e o outro se relacionam sempre em um esforço de convergência para a socialização, mesmo que esse esforço se revele em conflitos. Aqui, chega-se a um dos aspectos de uma doutrina que se consagrou como aquela que desvelou na luta de classes o motor da História.
A Sociologia de inspiração marxista oferece uma interpretação abrangente da sociedade moderna e uma compreensão das leis de evolução da história baseada em uma teoria das estruturas sociais, das relações de força e das relações de produção. Essa doutrina é global, totalizante e determinista e, muitas vezes, suas ideias são apresentadas como conquistas definitivas e como bandeiras políticas a serem levantadas. Como corrente interpretativa e como estudo social ela se solidificou no imaginário coletivo, fazendo crer que a sua previsão para o futuro da sociedade poderia ser aplicada para sempre. Quando se levantou a bandeira dessa doutrina, aplicando-a efetivamente na história, houve, de um lado, aqueles que lutaram para se libertar de uma exploração contínua e, de outro, aqueles para os quais a apropriação dessa teoria serviu de pretexto para o aparecimento de sistemas de governo autoritários ou totalitários.
Esse modelo é, pois, um obstáculo a ser enfrentado pela Sociologia que pretende continuar evoluindo. Sem desmerecer o valor da teoria marxista, parte-se aqui do pressuposto de que sua leitura social enquadra-se em um dado momento da história e que, sendo a história dinâmica e imprevisível, cabe à Sociologia construir novas formas de pensamento, novas teorias, novas propostas e novas ações a fim de reavivar aquilo que sempre foi seu ideal: a compreensão da sociedade para a modificação social em direção a um patamar mais lúcido, mais coerente, mais humano e mais justo.
Outros pensadores devem colaborar, portanto, para a construção de um pensamento social voltado para a atualidade e para a possibilidade de intervenção na realidade. Outros autores devem se fazer presentes nesse quadro animado que professores e alunos observarão juntos: o quadro de uma sociedade viva, pulsante, dinâmica, ávida por construir um futuro melhor. Por meio do estudo, da leitura atenta e da reflexão, lograr-se-á êxito em colocar o estudante dentro do movimento vertiginoso de teorias e de ações humanas, na tentativa de compreensão daquilo que o homem produziu com o seu trabalho, com o seu talento, com a sua luta e com o seu amor.
Colocamo-nos assim como porta-vozes de um desejo: o de que essa disciplina recentemente posta no currículo do Ensino Médio possa ser revigorada pela mente crítica e perspicaz dessa juventude que a vivencia, que a estuda, que a configura segundo os seus próprios projetos e segundo as suas mais nobres aspirações. Temos a certeza de que a reiterada comunicação daquilo que já foi dito não é o suficiente para o florescimento de uma nova geração. Antes, é preciso uma apropriação, uma renovação e uma justa crítica de tudo aquilo que porventura venha a ser apresentado.
Levando-se em conta que a Sociologia tem por particularidade tomar por objeto de estudo transformações sociais que envolvem campos ideológicos opostos e que o professor dessa disciplina ocupa um desses campos, é necessário discernir com clareza os efeitos que o posicionamento social e político do professor tem na vida intelectual de seus alunos. O professor precisa tomar consciência de sua própria posição, sendo a lucidez acerca desse ponto condição para o rigor do conhecimento que pretende repartir. Mais importante ainda é colaborar para a autonomia intelectual daqueles que estão sob sua influência em vez de doutriná-los com as próprias convicções.
Atualmente parece superado o debate que, de início, ameaçava reduzir a Sociologia às ciências naturais. Trata-se, hoje, a Sociologia em seu caráter específico; no entanto, vive-se uma época que se convencionou chamar de crise da pós-modernidade, caracterizada, entre outras coisas, pela desilusão com as promessas modernas de emancipação humana. Essa crise atingiu fortemente as ciências sociais, de modo que hoje se questiona até que ponto seria possível reverter esse quadro sem uma revisão de seus principais paradigmas.
A crise da Sociologia deve-se principalmente ao descompasso entre sua capacidade explicativa e a nova realidade social. Tratam-se, muitas vezes, algumas categorias da análise sociológica como realidades históricas. Por exemplo, ainda se utiliza, muitas vezes, o sistema de classes burguesia e proletariado – típico do capitalismo industrial – no contexto de relações muito mais complexas do capitalismo globalizado, contexto esse em que a própria existência de classes sociais poderia ser posta em dúvida.
Vivencia-se hoje uma nova era de transição social: a sociedade industrial nacional está sendo substituída por uma sociedade informacional global na qual a identidade gerada tanto pelo trabalho quanto pela nação está sofrendo um processo profundo de desconstrução devido à revolução informacional e à globalização. Nesse sentido, questiona-se, por exemplo, a concepção do trabalho como categoria central da sociabilidade humana, já que, para alguns estudiosos, caberia à linguagem e não ao trabalho esse papel fundamental.
A Sociologia estuda o homem inserido em seu meio. Sendo este meio variado e heterogêneo, cabe ao sociólogo a tarefa de, na medida do possível, buscar encontrar as semelhanças que possibilitem uma descrição social válida. O universo social global, heterogêneo e multicultural pertence ao sociólogo como objeto de estudo tanto quanto a pequena aldeia indígena com seus hábitos particulares. O horizonte de aplicação da análise sociológica pretende-se, portanto, ao mesmo tempo local e global. A Sociologia quer fazer não apenas a experiência concreta de uma dada realidade social, mas quer também projetar suas informações para a consecução de teorias mais abrangentes. Foi assim que, no começo do seu desenvolvimento, a Sociologia ocupou-se tanto das observações restritas quanto das teorias gerais. Atualmente, constata-se uma espécie de ruptura ou de intervalo entre esses dois métodos. De um lado, postulam-se teorias abrangentes e, de outro lado, compilam-se informações. Essa fissura precisa ser superada, pois cabe a essa disciplina tanto a acuidade da investigação empírica quanto perspicácia da hipótese generalizada.
O que se verifica, portanto, é a necessidade de se fazer um balanço crítico das conquistas e fragilidades da Sociologia, a fim de que seja possível a essa disciplina continuar exercendo o seu papel na explicação dos fenômenos sociais. Já não faz mais sentido partir simplesmente das relações de produção como dimensão condicionante da política, da cultura e da própria consciência. As questões são bem mais complexas e não se deixam capturar por tais reducionismos. A disciplina que se pretenda menos uma ideologia que um instrumento sério de análise e interpretação da realidade precisa efetivamente desvincular-se de todas as pretensões dogmáticas que a prejudicam.
Sempre que a Sociologia se faz presente, o que se pretende é alcançar um nível de interpretação capaz de propiciar ao homem não apenas o espetáculo de uma história já desenvolvida, mas aumentar o poder criativo e a capacidade de transformação. Como toda ciência, a Sociologia é capaz de criar saber. Mas, devido a algumas particularidades, ela requer mais do que outras ciências uma vigilância constante em relação ao conhecimento que produz, pois esse conhecimento pode, além de ser falso, tornar-se uma ideologia.
Essa necessidade de velar sempre por uma concepção não dogmática de saber faz dessa disciplina um exercício incessante de reflexão. A importância da Sociologia está no fato de que a sociedade atual, que se torna cada vez mais carente de interpretação, cada dia mais desafiadora e mais atravessada de conflitos pede um pensamento hábil e perspicaz, pede uma reflexão crítica, sem ideologias rasteiras, pede um engajamento sóbrio e uma audácia investigativa capaz de desvendar tudo aquilo que se esconde por trás de discursos, de ideias e de atitudes.

Sobre o autor

Catarina Rochamonte
Doutoranda em Filosofia pela UFSCar
Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do Ceará), mestre em Filosofia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), doutoranda em Filosofia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); é escritora e jornalista independente.
Fonte: http://www.institutoliberal.org.br/blog/por-uma-sociologia-nao-marxista/

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015