quinta-feira, 19 de março de 2015

Por uma Sociologia não-marxista by Catarina Rochamonte

Por uma Sociologia não-marxista

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Há uma relação estabelecida entre os homens. Essa relação pode se dar de uma maneira fluida, quando está de acordo com as nossas inclinações e princípios ou de uma maneira tensa. O eu e o outro se relacionam sempre em um esforço de convergência para a socialização, mesmo que esse esforço se revele em conflitos. Aqui, chega-se a um dos aspectos de uma doutrina que se consagrou como aquela que desvelou na luta de classes o motor da História.
A Sociologia de inspiração marxista oferece uma interpretação abrangente da sociedade moderna e uma compreensão das leis de evolução da história baseada em uma teoria das estruturas sociais, das relações de força e das relações de produção. Essa doutrina é global, totalizante e determinista e, muitas vezes, suas ideias são apresentadas como conquistas definitivas e como bandeiras políticas a serem levantadas. Como corrente interpretativa e como estudo social ela se solidificou no imaginário coletivo, fazendo crer que a sua previsão para o futuro da sociedade poderia ser aplicada para sempre. Quando se levantou a bandeira dessa doutrina, aplicando-a efetivamente na história, houve, de um lado, aqueles que lutaram para se libertar de uma exploração contínua e, de outro, aqueles para os quais a apropriação dessa teoria serviu de pretexto para o aparecimento de sistemas de governo autoritários ou totalitários.
Esse modelo é, pois, um obstáculo a ser enfrentado pela Sociologia que pretende continuar evoluindo. Sem desmerecer o valor da teoria marxista, parte-se aqui do pressuposto de que sua leitura social enquadra-se em um dado momento da história e que, sendo a história dinâmica e imprevisível, cabe à Sociologia construir novas formas de pensamento, novas teorias, novas propostas e novas ações a fim de reavivar aquilo que sempre foi seu ideal: a compreensão da sociedade para a modificação social em direção a um patamar mais lúcido, mais coerente, mais humano e mais justo.
Outros pensadores devem colaborar, portanto, para a construção de um pensamento social voltado para a atualidade e para a possibilidade de intervenção na realidade. Outros autores devem se fazer presentes nesse quadro animado que professores e alunos observarão juntos: o quadro de uma sociedade viva, pulsante, dinâmica, ávida por construir um futuro melhor. Por meio do estudo, da leitura atenta e da reflexão, lograr-se-á êxito em colocar o estudante dentro do movimento vertiginoso de teorias e de ações humanas, na tentativa de compreensão daquilo que o homem produziu com o seu trabalho, com o seu talento, com a sua luta e com o seu amor.
Colocamo-nos assim como porta-vozes de um desejo: o de que essa disciplina recentemente posta no currículo do Ensino Médio possa ser revigorada pela mente crítica e perspicaz dessa juventude que a vivencia, que a estuda, que a configura segundo os seus próprios projetos e segundo as suas mais nobres aspirações. Temos a certeza de que a reiterada comunicação daquilo que já foi dito não é o suficiente para o florescimento de uma nova geração. Antes, é preciso uma apropriação, uma renovação e uma justa crítica de tudo aquilo que porventura venha a ser apresentado.
Levando-se em conta que a Sociologia tem por particularidade tomar por objeto de estudo transformações sociais que envolvem campos ideológicos opostos e que o professor dessa disciplina ocupa um desses campos, é necessário discernir com clareza os efeitos que o posicionamento social e político do professor tem na vida intelectual de seus alunos. O professor precisa tomar consciência de sua própria posição, sendo a lucidez acerca desse ponto condição para o rigor do conhecimento que pretende repartir. Mais importante ainda é colaborar para a autonomia intelectual daqueles que estão sob sua influência em vez de doutriná-los com as próprias convicções.
Atualmente parece superado o debate que, de início, ameaçava reduzir a Sociologia às ciências naturais. Trata-se, hoje, a Sociologia em seu caráter específico; no entanto, vive-se uma época que se convencionou chamar de crise da pós-modernidade, caracterizada, entre outras coisas, pela desilusão com as promessas modernas de emancipação humana. Essa crise atingiu fortemente as ciências sociais, de modo que hoje se questiona até que ponto seria possível reverter esse quadro sem uma revisão de seus principais paradigmas.
A crise da Sociologia deve-se principalmente ao descompasso entre sua capacidade explicativa e a nova realidade social. Tratam-se, muitas vezes, algumas categorias da análise sociológica como realidades históricas. Por exemplo, ainda se utiliza, muitas vezes, o sistema de classes burguesia e proletariado – típico do capitalismo industrial – no contexto de relações muito mais complexas do capitalismo globalizado, contexto esse em que a própria existência de classes sociais poderia ser posta em dúvida.
Vivencia-se hoje uma nova era de transição social: a sociedade industrial nacional está sendo substituída por uma sociedade informacional global na qual a identidade gerada tanto pelo trabalho quanto pela nação está sofrendo um processo profundo de desconstrução devido à revolução informacional e à globalização. Nesse sentido, questiona-se, por exemplo, a concepção do trabalho como categoria central da sociabilidade humana, já que, para alguns estudiosos, caberia à linguagem e não ao trabalho esse papel fundamental.
A Sociologia estuda o homem inserido em seu meio. Sendo este meio variado e heterogêneo, cabe ao sociólogo a tarefa de, na medida do possível, buscar encontrar as semelhanças que possibilitem uma descrição social válida. O universo social global, heterogêneo e multicultural pertence ao sociólogo como objeto de estudo tanto quanto a pequena aldeia indígena com seus hábitos particulares. O horizonte de aplicação da análise sociológica pretende-se, portanto, ao mesmo tempo local e global. A Sociologia quer fazer não apenas a experiência concreta de uma dada realidade social, mas quer também projetar suas informações para a consecução de teorias mais abrangentes. Foi assim que, no começo do seu desenvolvimento, a Sociologia ocupou-se tanto das observações restritas quanto das teorias gerais. Atualmente, constata-se uma espécie de ruptura ou de intervalo entre esses dois métodos. De um lado, postulam-se teorias abrangentes e, de outro lado, compilam-se informações. Essa fissura precisa ser superada, pois cabe a essa disciplina tanto a acuidade da investigação empírica quanto perspicácia da hipótese generalizada.
O que se verifica, portanto, é a necessidade de se fazer um balanço crítico das conquistas e fragilidades da Sociologia, a fim de que seja possível a essa disciplina continuar exercendo o seu papel na explicação dos fenômenos sociais. Já não faz mais sentido partir simplesmente das relações de produção como dimensão condicionante da política, da cultura e da própria consciência. As questões são bem mais complexas e não se deixam capturar por tais reducionismos. A disciplina que se pretenda menos uma ideologia que um instrumento sério de análise e interpretação da realidade precisa efetivamente desvincular-se de todas as pretensões dogmáticas que a prejudicam.
Sempre que a Sociologia se faz presente, o que se pretende é alcançar um nível de interpretação capaz de propiciar ao homem não apenas o espetáculo de uma história já desenvolvida, mas aumentar o poder criativo e a capacidade de transformação. Como toda ciência, a Sociologia é capaz de criar saber. Mas, devido a algumas particularidades, ela requer mais do que outras ciências uma vigilância constante em relação ao conhecimento que produz, pois esse conhecimento pode, além de ser falso, tornar-se uma ideologia.
Essa necessidade de velar sempre por uma concepção não dogmática de saber faz dessa disciplina um exercício incessante de reflexão. A importância da Sociologia está no fato de que a sociedade atual, que se torna cada vez mais carente de interpretação, cada dia mais desafiadora e mais atravessada de conflitos pede um pensamento hábil e perspicaz, pede uma reflexão crítica, sem ideologias rasteiras, pede um engajamento sóbrio e uma audácia investigativa capaz de desvendar tudo aquilo que se esconde por trás de discursos, de ideias e de atitudes.

Sobre o autor

Catarina Rochamonte
Doutoranda em Filosofia pela UFSCar
Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do Ceará), mestre em Filosofia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), doutoranda em Filosofia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); é escritora e jornalista independente.
Fonte: http://www.institutoliberal.org.br/blog/por-uma-sociologia-nao-marxista/

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